No passado Domingo festejou-se o “dia da Liberdade”, neste Sábado festejaremos o “dia do Trabalhador” e neste Domingo resta-nos o “dia da Mãe”. Curiosa esta proximidade de datas, que assinalam estas três grandes “celebrações”, em muito paradoxais, mas em tudo tão intrinsecamente relacionadas. Não fosse o fim da ditadura, e a caducidade dos valores morais Salazaristas, e a mulher continuaria a fazer da cozinha o seu lugar mais frequentado, da família o seu único valor e da devoção a filhos e a marido a sua crença maior, apenas disputado pelo seu amor a “Fátima”. Não fosse a queda do regime ditatorial em Portugal e o dia do Trabalhador não poderia ser celebrado, sendo que foi proibida e reprimida durante o Estado Novo qualquer manifestação pública ou comemoração deste dia. O 1º de Maio traz também a chegada do “carrapato” e em regiões como a de que eu sou oriunda, não há casa de bem que não coloque “Maias”, as flores das giestas, em tudo o que é porta ou janela ou entrada de ar na casa! Para afastar o “carrapato”, dizem as gentes!Tradição no “dia da Liberdade” são as corridas, a pé, de bicicleta... facto que eu sempre achei curioso, porque não consigo, por muito que tente, ver a corrida como manifestação suprema da liberdade de alguém. Vá, talvez seja só eu, mas a corrida a mim sempre me lembrou “fugida”! Fugir de algo, ou de alguém... a “Corrida para a Liberdade” sempre me ocorreu como a fuga da falta dela! Este ano, num corta-mato, que realizaram “lá na terra”, a minha cunhada mais nova, com 19 anos ganhou o primeiro lugar feminino! Isso e uma grande bolha no pé! Mais uma prova de que mulher, que é mulher, consegue tudo só depois de muito suor e sangue. Não me pareceu sentir-se muito livre depois de ter ganho, mas que trabalhou para a ganhar, lá isso trabalhou! E por falar em trabalhar, outro facto que também sempre me intrigou foi o de no dia do trabalhador ninguém trabalhar! Ora, vamos lá a ver, que melhor forma de mostrar apreço pelos direitos enquanto trabalhador do que trabalhando?! Mas não, vem o dia do trabalhador e ninguém trabalha! Ninguém! Lá na terra, nesse dia, fazem-se pic-nics, se o tempo estiver de feição! É que já nem as manifestações dão muito”jeito”!
Não... é uma miséria, não temos direitos nenhuns, as condições de trabalho são cada vez mais precárias, os trabalhadores cada vez mais explorados, mas no dia do trabalhador vamos todos é gozar o feriado e fazer um belo de um pic-nic! Umas sandes de lombo, panados e arroz de feijão e o belo do vinho de garrafão! Afogam-se as mágoas, dorme-se de papo para o ar, que de “tristezas” não vive o Homem! Afinal de contas, por muito paradoxal que possa parecer esta atitude até tem alguma lógica, se pensarmos no bom e velho slogan: “se eu não gostar de mim, quem gostará?!”.
Valha-nos ao menos o dia da Mãe, em que recebemos prendinhas e os nossos filhos nos trazem o pequeno-almoço à cama, ou não! E nós em jeito de agradecimento lá lhes vamos dando beijinhos o dia todo, perdoando pequenas faltas de comportamento, tudo porque é o nosso dia, o dia da mãe! Algumas sortudas, ganham mesmo o direito a passar o dia da mãe sem os filhos... vão fazer uma massagem, a depilação, manicure e pedicure, conforme manda a tradição! Afinal de contas é o nosso dia e cada uma o goza como quer!
Eu, no dia da Liberdade não corri, mas dormi até tarde, que sendo mãe de uma criança pequena é uma das maiores liberdades a que me poderei alguma vez dar ao luxo. No dia do trabalhador, trabalho em casa, porque boca de filha e marido não faz greve nesse dia e a casa continuará por arrumar. No dia da mãe conto com um belo dia de sol, para passear com a mais pequena e peço a tudo por Deus, que nesse dia a maternidade só me mostre o lado solar e se prive de birras, viroses e contratempos! Que mais poderá um ser livre desejar?!


































