terça-feira, 21 de abril de 2009

Anjos Cansados

Na hora em que os anjos se cansam o desânimo é rei. E hoje, tudo em mim é tédio.
Um tédio de sentir as saudades de quem amo e me falta, nos momentos em que os anjos me abandonam à solidão de uma solitária ilha, inundada de casas e pessoas vazias e sorrisos sem significado e palavras mortas presas em lábios roxos, secos de significado e significação.
Na hora em que os anjos se cansam a saudade é rainha. E hoje, tudo em mim é nostalgia.
Uma nostalgia secreta, presa e dominada pela minha força de vontade, mas que não disfarça a lembrança que me ocupa, do meu sítio, casa, amigos, família, cidade e lugares familiares.
O meu Porto, o meu porto seguro, porto de abrigo, o meu pequeno Portus, desta vez sem Calle.
Perdida em viagens, dentro de mim mesma, procurando o porquê deste meu sentir triste e pesado, lembro-me que é possível, que um dia, até mesmo os anjos se cansem.
Não há anjo que aguente o peso de um coração carregado de saudades, e hoje todo o bater do meu são palavras mudas que envio a quem me falta.
Na hora em que os anjos descansam as minhas palavras pesam. Pesam e falham a tradicional alegria que as marca. Marcando a ausência de uma ausência sentida, pesada e pensada, amarrada e obrigada ao exílio de uma ilha familiar.
Ruas e pedras e estradas e campos, vazios. O retrato da minha alma. O reflexo do meu ser e estar.
Não há ausência mais sentida, do que a ausência de nós mesmos. E hoje ausentei-me de mim, juntamente com o meu anjo cansado, na hora em que decidiu descansar! Finalmente sós. Os dois.
Carrego em mim hoje todo o peso de uma falha, falta, ausência, lacuna, vazio. Um deserto abalado pela minha vontade de lhe resistir. Hoje, na hora em que os anjos se cansam, não houve lugar a pensamentos floridos, lugares comuns ou ideias brilhantes. Nesta hora descanso… não é fácil lutar contra um mundo, que não se entende, não se percebe. Não é fácil encontrar justificações constantes para um mundo triste, feio, sujo, sem esperança, corrupto, cruel. Hoje, na hora em que os anjos se cansam trago em mim todo o peso do mundo e de mais dez… o daqueles de quem sinto falta.
Quero sentar-me junto ao meu dourado, verde musgo, rio Douro e sentir-lhe o espírito, a aragem, o aroma pútrido de escoamento de esgotos inundado de tainhas gulosas, que só um tripeiro de nascença sabe ignorar! Sentar-me à beira rio e deixar a hora passar. A hora em que os anjos se cansam. E então, voltar. Voltar à ilha, ao meu lugar de momento, aos meus metros terrenos de isolamento consciente e percorrer de novo todas as suas maravilhas, sem me lembrar das maravilhas que almejava agora percorrer.
A lembrança é fatal na hora em que os anjos se cansam e melhor é pensar, que um anjo qualquer, um não cansado, regresse e decida desta vez não se cansar!
Hoje, nesta hora solitária, desmistifico a vida e limito-me a senti-la, sem choro, sem riso, sem expressão nem desejos. Hoje, na hora em que os anjos se cansam, espero desesperançosa carregando nos ombros o peso de um anjo cansado, que hoje decidiu descansar.

Contrariedades


Exemplos de ontem: De tanto querer pintar a sua própria realidade, acabou por ser chamada de surrealista.
Exemplos de hoje: De tanto querer viver um amor feliz, acaba sempre por se apaixonar pelas pessoas erradas.
De tanto querer ser mãe, acaba por passar anos a negligenciar o casamento, que lhe poderia dar o seu tão desejado filho.
De tanto querer estudar, acaba por passar anos, perdida em festas académicas e praxes e afins, trabalhos em part-time, para pagar os estudos, fazendo tudo e de tudo um pouco, acabando por não lhe sobrar tempo nenhum para o estudo.
De tanto se desejar uma carreira de sucesso, acaba por se perder nos meandros da ambição frustrada e dos desejos não realizados.
De tanto desejar uma vida pura, livre de stresses e pressões, acaba por se ver envolvida na maior luta da sua vida… impor o seu estilo, modo de viver, agir e pensar.
De tanto querer escrever, acaba por deixar de lado tudo aquilo que a vida tem de bom, isolando-se do mundo, que lhe daria alimento à escrita e nunca publicando nada seu!
De tanto querer ser saudável, bonita, elegante e em forma, acaba por se entupir de comprimidos, drogas de rejuvenescimento, “tunnings” corporais dizimando para sempre a sua saúde e esperança de permanecer jovem, intacta e de boa forma.
De tanto querer uma casa perfeita, esquece-se dela própria e do facto de que uma casa perfeita, não é só uma casa limpa e arrumada. Uma casa limpa e arrumada sem gente, nem amor, nem ninguém para desfrutar dela é uma casa sem alma. Enfim, é uma casa e não um lar.
De tanto querer mostrar uma riqueza que não tinha, acaba por se afundar em créditos e dívidas, que a levaram a uma pobreza, pior do que aquela que já possuía, uma pobreza material e de espírito.
De tanto desejar não se envolver demais, acaba por se ver envolvida numa luta constante para não se envolver.
De tanto querer ser a melhor funcionária, acaba por se tornar na pior colega de trabalho de sempre sem nunca lhe ser reconhecido mérito.
De tanto querer amar intensamente, envolve-se em paixões, atracções e casos diários sem valor relegando para sempre o espaço necessário a um amor intenso.
De tanto querer ser a melhor, mais notada e admirada, acaba por cair no ridículo e apontada por todos como exemplo a NÃO seguir.
De tanto querer ser boazinha, acaba por se tornar numa péssima pessoa para si própria, torturando-se e castigando-se por não ter sempre os instintos, que desejava fossem os seus naturais.
De tanto querer ser loira, acaba por se tornar em algo entre o moreno e o platinado, algo indefinido e normalmente catalogado como “loira burra”.
De tanto querer ser morena, pinta-se de solários e auto-bronzeadores acabando laranja!

Exemplos para amanhã: Não será já altura de nos aceitarmos como somos e compreendermos, acima de tudo, que nem sempre os meios justificam os fins?!


“ Nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade." - Frida Kahlo

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Mulher com 30 anos e 1 desejo...


Eram dez horas da manhã quando recebi uma mensagem dela. Pedia-me, por favor, se lhe podia ligar que estava sem saldo. Estava à porta de casa, no corredor de acesso ao piso. A chave que tinha não abria essa porta. Pois não…tínhamo-nos esquecido de que essa porta abria com uma chave diferente. Há cerca de 3 semanas atrás tínhamos mandado fazer uma cópia para ela, mas ela já faltava há mais de um mês e não nos lembramos de lha entregar. Normalmente deixava essa porta aberta, mas hoje esqueci-me por completo, as mãos carregadas de filha, carteira, documentos e banana tornaram essa uma tarefa, mais uma e em demasia, para um cérebro desleixado e “deixa p’ra lá” como é o meu, que anula inconscientemente as tarefas que me fariam entrar em overload!

Ela entra sempre à vontade dela, faz o serviço todo, nunca deixa nada para trás… e quando chegamos a casa… notamos sempre a limpeza da D.Cidália… um “cheirinho a fresco” como lhe chamamos.

Já estávamos a sentir a falta dela desde aquele dia em que ela ligou a dizer por meias palavras baralhadas e entrelaçadas que não ia puder trabalhar na quinta-feira, porque tinha feito uns exames, que ia fazer amanhã de novo e já a internavam na sexta-feira. Não ia puder vir. Lamentava e pedia desculpa. Depois, ficou de vir a semana passada, mas novamente pediu desculpa e faltou. Dessa vez mandou mensagem de manhã… a dizer que tinha tido uma noite péssima e que estava no hospital a soro e possivelmente iria levar uma injecção para as dores… Fiquei preocupada. Afinal de contas, uma operação de remoção de um quisto no útero não seria assim tão problemática! Ou seria?!

Ao chegar ao patamar, lá estava ela. Já à minha espera, sempre com o mesmo ar jovem, simpático, de confiança… mas desta vez trazia nos olhos um medo. Um terror que lhe saía pela menina dos olhos em forma de tristeza. Perguntei como tinha corrido a Páscoa. Como estavam os seus cinco meninos?! A mais novinha, a de 4 anos, continuava com a doce rebeldia habitual nesta idade… e enquanto falávamos, arfando um pouco da caminhada apressada perguntei-lhe se já se sentia melhor… se o quisto tinha ido para análise, e que tal os resultados. Não parámos, disse-me apenas que já tinha começado a quimioterapia, que iria agora fazer uma vez, de duas em duas semanas.


Parei.


Olhando-a, a tristeza dela transbordou-lhe dos olhos, que já não tinham barreiras suficientes para a conter e em forma de lágrimas disse-me que o “quisto” se chamava sarcoma. Tinha dois centímetros. Tinham-lhe laqueado as trompas. E que pena que ela tinha… gostava tanto de ser mãe… e ainda não estava recuperada da morte do seu bebé, há um ano atrás. Estava à espera de novos resultados de biopsia, a fim de saber se o “sacana” era macho ou fêmea. Continuou dizendo trémula, que só esperava não perder aquilo… apontando com a sua delicada mão para os seus cada vez mais delicados cabelos.

De todas as minhas palavras, de todos os meus gestos e expressões… de tudo o que disse, queria dizer e fazer, só me ocorreu que: nada era suficiente. No recado que lhe tinha deixado em casa, como habitualmente faço, indicando todas as tarefas que ela teria que desempenhar ao longo do dia, tinha deixado um obs., juntamente com um ovinho da Páscoa para os seus meninos: “por favor não se esforce, não quero que se magoe nas limpezas. Só faz aquilo que conseguir fazer.”. Soou-me tão brando e inútil. Apeteceu-me ir a correr rasgá-lo, antes que ela o pudesse ler…
Nesse dia, fez tudo. Exactamente como habitualmente faz. A casa cheirava a “fresco” como habitualmente cheira quando é dia da limpeza dela, a roupa estava imaculadamente passada, os brinquedos da minha filha religiosamente arrumados. E encontrei-a a fazer hora extra, ainda a passar a ferro, porque tinha perdido uma hora à conversa comigo… de manhã no patamar do prédio.

Implorei-lhe que parasse, que se sentasse um pouco a conversar comigo, mas conversamos… ela com o ferro ainda ligado na mão e eu, em pé… à frente da tábua.
Perguntei-lhe se precisava de alguma coisa, se podia fazer algo por ela. Se tinha comido?! Se estava bem… Ela respondeu que estava feliz. Estava feliz por trabalhar. Tinha comido uma sopa. Queria trabalhar mais dias. Ter pretexto válido para sair de casa, validando a sua existência e fazendo uso dos seus 30 anos de vida, acumulados naquele corpo em recuperação, débil, deprimido e atordoado pelos 24 comprimidos diários que toma agora, todos os dias. 30 anos e um desejo… Perguntei-lhe se não tinha ajuda da família, com os meninos?! Afinal de contas eram 5, deviam dar muito trabalho. A mãe, estava fugida para o Canadá, porque o pai lhe bateu anos a fio, até que um dia, ela decidiu deixar a vida da ilha para trás, onde já não encontrava porto seguro em lado algum. Estava triste e queria voltar para ajudar a filha neste momento, mas não voltava com medo. A sogra, ajudava um pouco. A filha mais velha, agora com 14 anos também ajudava no que podia… incluindo nas buscas pela internet, procurando informação sobre o “quisto” sarcoma, que lhes tirava agora o descanso e lhes lembrava continuamente de que todos nós somos carne e osso, máquinas humanas, passíveis de defeitos e malformações e que ninguém, quer tenha 5 ou 50 milhões de Euros é imortal.

Agradeceu-me pelas palavras amigas. Prometeu voltar na quinta-feira. Tem quimio na quarta. Explicou-me que na ilha não há radioterapia, mas jurou voltar. Não gosta de faltar aos seus compromissos, disse-me ela!

Despedi-me dela à porta. Sorrimos os duas e a porta bateu.

"Espero por si quinta-feira, D.Cidália. Esperarei por si, todas elas!"

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Reacções e Comentários (re)activos, “sim, por favor, obrigada!”


Estas coisas de se ir cronicando publicamente tem efeitos que as minhas croniquices me evitavam, quando se limitavam apenas ao papel do meu bloco de notas ou às notas no meu bloquinho de papel… Tenho recebido comentários dos meus tão queridos e mais fiéis amigos, que talvez obrigados pela amizade, que nos une têm lido vigorosamente as minhas croniquices e historinhas e sido bastante encorajadores e positivos.

Mas da boca dos amigos as verdades são mais meigas! E a originalidade sinuosa do comentário, não postado, mas comentado em conversa electrónica com uma amiga, veio da boca de alguém, que não me conhecendo, me alimenta agora mais uma croniquice, não pretensiosa, nem explicativa, até porque as crónicas são a minha liberdade de expressão e como referi no meu texto de introdução apenas nascem da minha busca por uma “distracção prazeirosa” que me alimente o pensamento, libertando-o.

Assim sendo, ao ouvir os meus textos lidos”critiquironicamente” à luz da Literatura de Paulo Coelho, do afamado livro “O Segredo” ou de livros de “auto-ajuda”, não pude deixar de rir… queria eu ter a mestria de ver as minhas pobres palavras nas prateleiras dos livros mais bem colocados nas mais bem “colocadas” livrarias, recebendo os lucro devidos aos devidos “best-sellers” e ajudando pobres almas, usando as minhas palavras como lenitivo para dores da alma e da psique! Mas realmente devo confessar que não farão assim tanto parte do meu mundo de referências literárias...

Não sendo fã de Paulo Coelho, confesso não ter passado ao lado da leitura de algumas das suas “obras”, o que já não posso dizer em relação aos textos de “auto-ajuda”, ao lado dos quais nunca passei, a não ser em corredores dos locais onde habitam comummente os livros! Não tenho “Segredo” para as minhas crónicas… ou talvez o único segredo esteja algures entre o meu pequeno cérebro e as, ainda mais pequenas, pontas dos meus dedos.

Ao longo do meu percurso académico, tive a oportunidade de ler muitos textos e ouvir falar acerca de muitos conceitos literários, mas aquilo de que nunca mais me esqueci é de que um texto, qualquer texto tem sempre um intra-texto e um inter-texto, explicando em palavras de 5 euros, há sempre relações do texto com o próprio texto (intra-texto) e relações do texto com outros textos (inter-texto). Essas relações, são relações de sentido, mundos de referência, marcas pessoais entre outras coisas. Cada texto, parece-me a mim, tem a sua originalidade, seja em pensamento, filosofia, marca ou estilo, mas também me parece pretensiosismo e até mesmo preciosismo a mais, viver na ilusão que cada texto é incomparável e assim sendo, o que para uns pode soar a “Paulo Coelhismo”, para outros poderá, quem sabe, soar a “Tony Carreirismo”! Falem mal ou falem bem, o que interessa é que leiam… é saudável, profícuo e libertador! Reacções e Comentários são bem-vindos, por favor! Caso contrário não teria decidido tornar públicas as minhas palavras, mas por favor, poupem-me das análises literárias, críticas ou analíticas, que tantos anos me ocuparam já, dando-me notas nem sempre famosas e alguns cabelos brancos!

Se alguma coisa, quiserem ler nas entrelinhas destas minhas frases, então leiam a filosofia Agostiniana, que diz:

Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.in Agostinho da Silva, in 'Cartas a um Jovem Filósofo'

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Arranhei o pára-choques de um carro e deixei contacto, serei normal?!

Não sou, nunca fui e recuso-me a ser daquele género de pessoas, que se recusa a responder pelas suas acções. Mas será que eu sou normal?!

Correndo o risco de parecer mais uma daquelas perguntas que se costumava enviar para uma tal revista”Mariazinha” e que agora se enviam e colocam em blogues, como este, hoje de manhã dei por mim a passar por determinada situação e a perguntar para mim mesma: Mas eu serei normal?! Será que fiz bem?! E se me meto em confusões?!


Passo a explicar o sucedido: numa, daquelas muitas manhãs em que fiquei a dever umas horitas à cama, ao sair de uma rua apertadíssima, como só conheci até hoje em Ponta Delgada, e onde para cúmulo se estacionam os carros em frente a portas e janelas das casas, ocupando o espaço da via de rodagem, ao tentar virar para a Rua da Creche da minha filha, arranhei um carro, pintadinho de novo, azulinho Peugeot e lavado, com o friso da porta do meu sujo e miserável “carro do povo”! Mas o melhor é que no meu carro, nem marca ficou do sucedido, enquanto que no pobre “azulinho”, mal aparcado e limpinho se tornaram bem visíveis as marcas do dito “encontro de chapas”!


Ora, estava atrasada para o trabalho, ainda tinha que deixar a minha filha na Creche e não me dava jeito nenhum desembolsar mais uns tantos euritos para pagar uma “maquilhagem” ao pára-choques do dito bólide! Então?! O que é que eu fiz?! Ora, parei o carro, procurei na carteira uma caneta e papel à pressa e em letras garrafais, com uma caneta fluorescente de sublinhar (não tinha outro instrumento de escrita à mão…) deixei escritos no papel o meu nome e o meu número de telemóvel. Coisa de que me arrependi mal arranquei!


Bem sei, que isto não se trata de mais do que uma questão de pura ética e moral, que juntamente com a nossa economia, parecem ter entrado em recessão na sociedade actual… mas a verdade é que me assustou a ideia de ter pensado se seria normal por ter feito tal coisa… não seria o mais normal, nos dias que correm, arrancar e nunca mais pensar no assunto?! Quantas vezes na minha “invicta”, não fui eu dar com a minha pobre viatura cheia de mazelas e marcas de perícias falhadas de condutores tão astutos quanto eu?! Ainda no dia em que recebi o meu carro da ilha, me deparei passadas poucas horas de o ter estacionado, com um espelho partido!!! E cartão de contacto ou desculpas?! Que nada! Isso já não se faz… É que são vários os riscos que corremos ao proceder da forma dita “moralmente correcta”. Veja-se: podemos ser extorquidos por um arranjinho entre dono da viatura e o mecânico, podemos correr o sério risco de ser insultados e agredidos verbalmente por alguém sem educação ou maneiras, enfurecido e revoltado em relação ao sucedido, pode ser até que aproveitem o nome e número para contactos “estranhos” e de intenções “duvidosas”, o condutor pode até nem reparar na “mossa” e pensar que aquilo é uma forma de abordagem arrojada… pior ainda, a mulher ciumenta, que fica possuída ao encontrar tal papel no pára-brisas se deixa iludir pelas letrinhas fluorescentes garrafais, com nome e número de outra mulher… CREDO! A verdade é que num mundo como o que vivemos hoje em dia, tudo é de desconfiar, duvidar e temer…


Mas eu deixei o contacto. Serei normal?! É que foi um impulso tão natural, que só podem lembrar as velhas máximas que dizem: “todo o homem é puro” e a “sociedade é que corrompe o homem”.


Eu acredito que dar um bom exemplo, pode servir para contrariar a onda de desconfiança e corrupção que nos assola, a nós indivíduos, enquanto seres individuais e enquanto seres sociais, mas a verdade é que mesmo não acreditando em “bruxas”, que as “há, lá isso há”!!!



P.S. – Ainda não fui contactada pelo lesado…

terça-feira, 14 de abril de 2009

O dia em que umas calças novas mudaram a minha vida!

Este Domingo comprei umas calças novas. Ansiosa por vesti-las acabei por fazer uma bainha, expresso, daquelas com fita auto-colante à pressa. Não medi bainhas, não cortei as sobras… foi só mesmo assim: colá-las para não arrastarem no chão! Mas a vontade de vesti-las era tanta que não podia estar prái com muitas “coisas”! Feita a bainha… dormi a correr para as vestir mal acordei! Mas sabem aquele tipo de roupa, que vos fica mesmo à medida?! Tão à medida, que parece que foi feita de propósito para vocês?! Era isso mesmo que eu sentia ao olhar-me ao espelho nessa manhã ensonada com as minhas super calças vestidas! Acabada de me arranjar, olhando-me ao espelho, novamente, desta vez já com a minha filha ao colo, senti que tudo nesse dia ia correr bem!

Ao sair de casa, não pude deixar de ouvir o piropo, em forma disfarçada de comentário, a sair da boca do meu marido, o que só por si já valeu a pena… Entrei no carro e estava a dar a minha música favorita, mas uma daquelas que já não se ouve à séculos e da qual nunca se comprou o cd… deixei a menina na creche, olhei para as calças e lá estavam elas… limpas e imaculadas, livres de restos de bolachas e baba da minha adorável filhota de meses! Voltei a entrar no carro e no caminho até ao meu local de trabalho só fez sol… Tudo correu bem nessa manhã e não sei se inspirada pela minha confiança renovada pela excelência das minhas mui lindas calças novas, resolvi ir almoçar sozinha, aproveitando a ocasião para pôr a leitura em dia. Consegui ler tudo aquilo a que me propus, e com a mesma rapidez da manhã também a tarde de trabalho, entre cópias, faxes e emails se esvaiu em fumo! De novo na Creche, desta vez para ir buscar a minha filha, fui recebida por ela com o mais maravilhoso dos sorrisos. Regressadas a casa, não chorou ao comer a sopa, não a cuspiu, não fez birra no banho e pude fazer o jantar em paz, que depois saboreei como já não saboreava à muito, na companhia do meu mais-que-tudo! Acabado o jantar, a pequena adormeceu em segundos e ainda fizemos serão a ver telenovela no sofá e a namorar até adormecermos…

E agora, perguntam vocês, e com razão: Mas então porque raio se lembrou esta de cronicar sob o título anunciado?! Aparentemente nada mudou na sua vida! Mas permitam-me corrigi-los, ao explicar-lhes porque nesse dia tudo mudou, de facto, na minha vida. Cheguei à conclusão nesse dia, que bastam pequenas coisas para sermos felizes e que, por vezes a felicidade se encontra nas mais pequenas coisas do dia-a-dia. Nesse dia, à custa de umas novas calças, agora já não tão novas, aprendi que o dia é aquilo que o fazemos e que pensamentos positivos atraem coisas positivas! Afinal de contas, não será felicidade passar mais um dia com saúde, algum dinheiro e trabalho na companhia de quem mais amamos?!

Num tempo em que a felicidade é sobrevalorizada e em que o culto da perfeição nos leva a ser cada vez mais infelizes, vale a pena recordar que a verdadeira felicidade está ao nosso alcance todos os dias, basta estarmos dispostos a encontrá-la nos pequenos actos rotineiros, e deixarmos de lado a busca gananciosa da magnânime felicidade nos grandes luxos e riquezas materiais a que poucos de nós temos acesso diário!

No dia em que umas calças novas mudaram a minha vida, eu aprendi que o amor, a paz, a harmonia e a saúde são a maior riqueza que alguém pode desejar…

Pensamentos que me ocupam…


O amor, o amor, e ainda agora e sempre o amor.


Eu, eterna convicta e crente na existência do amor, me assumo. Assim como, a minha profunda tristeza e desilusão ao assistir ao comentário, de mesa de café, que como qualquer mulher que se preze, que sou, não consegui deixar de escutar na mesa ao lado do meu pequeno-almoço e café. Duas mulheres, como eu, comentavam: “ Ó ‘ome, isso do amor já era…”. Bem, se por pura distracção ou falta dela, me permiti a escutar aquele comentário, calculem agora, que por pura atenção ou excesso dela me resolvi a escutar o resto desta conversa… “olha c’o meu homem foi o mesmo, tava-me consolando no início do casamento, até qu’as coisas vão esfriando e olha… agora é só bola e café… e tontas somos nós… qu’esse corisco d’esse amor só traz é problemas à gente”. Confesso que este diálogo não era assim tão original como ponderei, pudesse vir a ser, e de facto, a resma de problemas a seguir enunciadas por ambas as interlocutoras eram bem comuns ao público geral e partilhadas por uma boa resma de casais nos tempos modernos, o que me levou à seguinte questão: conseguirá o amor sobreviver aos tempos que correm?! Conseguiremos nós, no meio do stress diário, da fatal rotina e da doméstica “desvida”, manter viva a chama do amor?! E isso assustou-me… até ao momento em que depois do efeito da cafeína no cérebro, me pus a pensar: mas então se amores houve, que resistiram a guerras, fome e anos de separação, não poderão os amores modernos vencer também a crise instalada?! Ou será que até para salvar o amor teremos que pedir agora apoios ao estado?!


Vamos pensar no exemplo citado pelas duas senhoras, que me servem hoje de alimento para cronicar… uma delas, nomeadamente a de quem não citei as falas queixava-se da complicação e completo caos, em que a sua vida se tinha tornado, depois do nascimento do seu tão desejado “rebento”, encarado agora como uma máquina gritadeira de fazer fraldas e sujar mudas de roupa, que para mais não servia do que para lhe tirar noites de sono e as habituais saídas ao café com o seu companheiro. Sendo que este não deixou de o fazer, apesar de compreender perfeitamente que ela não goste de ficar sozinha em casa com a “criaturinha de Deus”, por ambos gerada! Para desespero da mesma, o facto de o marido chegar a casa a tardes horas da noite, não ajudava, motivo pelo qual a relação dos dois se resumia agora a um olhar de “bom-dia” mudo, na casa de banho de manhã, seguido de um jantar a ver as “quase” notícias da TV e qualquer coisa. Não se tocavam, tinham esquecido de se beijar e se falavam era para ralhar mutuamente pelos males da vida, da crise e da falta de dinheiro. E ela que tinha tantas saudades do tempo em que namoravam… e não será com certeza a única, como ela muitas de nós padecemos do mesmo mal e falta de tempo para investir na relação. E agora, perguntam vocês: mas e onde raio pára o amor, para onde foi, que tanta falta faz nestas situações, terá ficado esquecido por trás de alguma prateleira nas longas horas perdidas no supermercado? Ou por baixo de uma mesa de café, junto de cascas de amendoins pisadas e beatas mal apagadas?! E eu respondo… o amor, precisa de tempo, e sem ele o amor não tem oportunidade de se manifestar para salvar a relação. Por isso, mulheres e homens das ilhas e arredores cabe-nos a nós reservar tempo para o amor, única e exclusivamente para ele… só assim a relação sobrevirá!

Não Percebo...


Do alto da minha pobre idade, eu pergunto-me: porque é que será que nós mulheres, instruídas, cultas, bonitas, emancipadas e maduras continuamos a acreditar em amores impossíveis, complicados, problemáticos e sem futuro?! Será que nem depois de tudo aquilo a que temos acesso hoje se nos leva a perceber que o verdadeiro amor é fácil, tão natural e descomplicado como respirar! Não acreditam?! Pensem na vossa cor favorita?! No vosso prato favorito, filme, livro ou local e digam-me com sinceridade: tiveram que se esforçar para gostar deles?! Tiveram que encontrar todos os dias novas razões para manterem a vossa preferência por eles?! Claro que não… Gostar de alguma coisa, assim como gostar de alguém é imanente e surge, muitas das vezes, sem se saber muito bem como nem porquê! Agora, manter relações, lidar com sentimentos de paixão ou atracção… isso sim, isso é um verdadeiro bicho de “sete cabeças”, mas mesmo assim e mais ainda, por nós mesmas sabermos que isso é tão complicado, porque continuamos a investir todos os nossos esforços e valioso e raríssimo tempo em relações, que nós temos por certo condenadas ao fracasso?!


Vou dar-vos um exemplo da razão da minha indignação e dúvida: tenho uma grande amiga e por isso a questão me é tão próxima, que mantém uma relação com alguém, um certo indivíduo de estatura, aparência e condição, considerada dentro da norma, para perceberem que não se trata de alguém extraordinariamente belo, nem rico, nem famoso (o que para alguns poderia justificar uma obrigatoriedade ou interesse em manter a relação). Resumindo, fala-se de duas pessoas normais! Voltando a essa minha amiga, que nitidamente não está realizada nesta relação, até porque já estando juntos à cerca de cinco anos insiste em manter a relação apesar das contínuas “facadas” na relação alegando, aparentemente, não encarar o namoro como um compromisso tão sério como o casamento. E eu pergunto-me: porque insistirá aquela pobre alma no contínuo desperdício de tempo, que perde naquela relação?! Porque não se decide a assumir de vez a falta de equilíbrio e amor entre os dois e não dá a oportunidade de se libertarem ambos de uma relação condenada à infelicidade, insucesso e infortúnio?! Não entendo… mas não é a única, como ela, todos os dias ouço falar de casos bem semelhantes, ou até mesmo piores, em que apesar de traumas, agressões, infidelidades e ataques de parte a parte, as pessoas continuam a insistir em manter a relação por puro “comodismo”, ou medo da alternativa… Será assim tão complicado para essas pessoas entenderem que, pior do que o que estão não poderão ficar e que, por muito que tentem e continuem a insistir, o verdadeiro amor não aparece assim por insistência ou investimento forçado?! As pessoas até podem passar uma vida inteira juntas e sentirem-se comodamente “contentinhas”, mas estão a negar a si próprias e ao outro o direito, que todos temos, a respirar um verdadeiro amor.


Falo por mim e para quem me entende: um verdadeiro amor sente-se, só assim, porque sim e todos os dias de igual modo, (apesar de possíveis dificuldades, que possam surgir no normal desgaste e vivência de uma relação). E por quem, como eu, teve a sorte de encontrar um amor tão natural como a própria condição de existir, eu deixo aqui o meu apelo: deixem-nos respirar o amor!

Croniquices e historinhas...


Numa era de Internet e afins, não posso passar ao lado das inovações, no sentido de fazer chegar ao mundo as minhas croniquices!


Tudo começou, num belo final de dia de conversa à porta de casa com uma amiga, como tem que ser... que me sugeria a escrita como compensação de algo que estava a faltar na minha vida: uma distração prazeirosa como escape de uma rotina exaustiva e fatigante.


O título: mulher a 1000/h é como muitas vezes me sinto... a 1000/h... num constante reboliço que é a vida de uma mulher, esposa, mãe, filha, amiga, sobrinha, cidadã e trabalhadora! Mas sempre, sempre muito mulher em tudo aquilo que isso implica: feminilidade, sensibilidade, interesses e prazeres, feitios e defeitos!


As Croniquices são ideias que me pairam na cabeça... que aqui exponho em forma de cróniquinhas e historietas... não pretenciosas e sem intenções sérias... o único objectivo: alimentar a liberdade do meu pensamento e partilhá-lo na liberdade do vosso... porque, no fundo, estas croniquices, não passam de mais uma forma de Liberdade... o valor mais alto da nossa existência!
Não há público leitor destinatário específico, nem sequer sei se terão algum interesse para alguém... talvez os meus tão queridos amigos as cheguem a ler um dia, forçados pelos insitentes convites à leitura das mesmas e quem sabe... até poderão elas mesmas servir agora para os libertar a eles da vida diária de stress que vivem!? O que sei é que, se servirem para vos libertar o pensamento, ainda que por breves instantes, já valeu a trabalheira da criação do blog... sim porque cronicar, isso é fácil para mim! Tão natural como a àgua para matar a sede!