
Hoje acordei e senti-me Sophia...
Olhei para o meu marido e para o seu corpo frio, dos suores da manhã, ainda deitado a meu lado e disse-lhe ao ouvido: “Amo-te”!
“Porquê?!” – Perguntou ele mudo, ainda perdido no sonho...
E eu respondi-lhe:
“Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.”
Continuou adormecido, sem se aperceber de mim.
Levantei-me em passos silenciosos e corri para o quarto da minha filha. Olhei-a dormindo no seu berço, tão sossegada e serena e pensei...
“Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa”
Beijei-a na testa e deixei-a dormir...
Entrei na sala, onde os primeiros raios de sol brilhavam e olhei pela janela para o mar... mar que me separa das coisas que mais amo, família e amigos, tia, pai, mãe...
“Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades”
Mas não me perdi em angústias, nem sufocos em demasia.
Abri a janela, precisava de respirar e então sonhei... e pensei...
“Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.”
A minha alma encheu-se de esplendor e senti-me “reflorir”, também eu, neste acordar.
"Cantei" encarando o mar, a sorte de ali me encontrar e jurei...
‘quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar’...