terça-feira, 17 de agosto de 2010

Leituras negras de tão cor-de-rosa - no AO

Fui ao cabeleireiro esta semana, estou a ficar com aquelas horríveis “entradas” de pensador na testa, que herdei do código genético da minha mãe, que nos marca desde a nascença com grandes testas e a partir dos 30 com umas entradas capilares laterais que quase poderiam servir para pista de aterragem de pequenos voos charter! Enfim, mas não é de problemas capilares que trata a croniquice desta semana, podia ser, mas não é! Estava eu sentada no cadeirão de massagem quando reparo em coisa muito frequente neste ambiente: a oferta de mais uma revista “cor-de-rosa” para “leitura” de mais uma distinta senhora, que se encontrava a fazer a pedicure! E eu, a respeito das revistas “cor-de-rosa”, tenho uma opinião um pouco particular, mas bem cimentada… é que, e apesar de por vezes, mais que muitas, não resitir a “vê-las”, nunca lê-las, considero-as um veículo, socialmente aceite, de “coscuvelhice” velada da vida do alheio. É que nestas revistas, e mais numas do que noutras, a tónica é sempre a mesma, a vida deste e daquele, a casa deste e daqueloutro, os filhos desta e daquela, as relações, os casarões, os escaldões… enfim… um sem fim de baboseiras, que ora nos deixa boquiabertos de tanta palermice, ora de tanta aparente falta de decoro e privacidade na exposição de vidas íntimas a público.
Eu, pecadora me confesso, que noutras alturas, mais do que hoje em dia, já cheguei mesmo a comprar quilos das ditas, para ver como tinha sido o casamento desta ou daquele, apontando o dedo e sibilando críticas viperíssimas aos modelitos que as figuras envergavam, ou babando em cima de itens que nunca sequer considerei poder ter… relógios milionários, vestidos estonteantes, sapatos de chorar pelo preço, que bem podia ser o meu rendimento anual. Mas como confesso que comprei e já li, também admito que talvez fosse a minha faceta mais “curiosa” a vir ao de cima, com o pretexto de que me estava a “manter a par das tendências da moda”! E mantive, decorei desde penteados a tendências para carteiras e padrões, mas também me ri muito à custa do “este anda com aquela que andou com o outro, que já foi casado com uma que agora é gay”! Verdadeiras novelas imagéticas, imortalizadas para sempre numa folha de papel, à nossa disposição, para dele nos bem servirmos, como entendermos.
Hoje em dia, talvez por causa da falta de tempo, outras prioridades e outro amadurecimento, acho que vejo com mais clareza, aquilo que essas revistas são, que salvo raríssimas excepções trazem artigos ou entrevistas de verdadeiro interesse, com que possamos aprender alguma coisa. E quando quero ver moda, agora, compro uma revista com esse único ponto de vista!
O que me interessa a mim quem tem mais celulite neste Verão ou quem é o novo namorado da Elsa Raposo, coisa que de resto é mais variável do que as cotações da bolsa de Lisboa. Isto é a minha opinião e por isso, cada vez que vejo alguém de aspecto pseudo-intelectual a desfolhar essas revistas como se do “The New York Times” se tratasse, só me apetece agarrar na barriga e desatar a rir. Porque “queque” que é “queque”, compra a revista Caras como quem compra uma entrada para um museu, lendo as legendas das imagens das “tias” como quem lê o roteiro e sugestões da “visita”. Se querem comprar essas revistas, ao menos façam-no com o ar da vizinha “cusca” que surpreendemos a remexer no nosso lixo ou a entrar na nossa lavandaria, que com o maior ar de boa “companheira” nos arremata com um: “Ai vizinha, a sua roupa já está sequinha, sequinha!”.
E sequinha estou eu, de pachorra para com quem acha que ler é desfolhar páginas “cor-de-rosa”, deliciando-se com o bebé do mês e lendo as respostas do “Consultório Ele e Ela”, como quem lê um artigo científico! E depois admiram-se que seja este o século da “morte” dos grandes autores!

1 comentário:

  1. Tem graça quando dizes que não lês essas revistas, apenas vês:) Eu faço exactamente o mesmo, vejo a revista num minuto! A falta de conteúdo é obvia,e só dá mesmo para pegar numa revista dessas quando se vai ao cabeleireiro:) bj!

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